segunda-feira, setembro 10, 2007


um dos assuntos mais íntimos de cada um de nós é a nossa fé, ou a falta dela.
soa a cliché mas de facto a fé não se explica, ou se sente ou não se sente.
a minha posição neste ponto não podia ser mais volátil. se por vezes tenho a certeza de que alguma coisa mais forte que eu lá de cima fez um arranjinho para tudo se ter desenrolado de maneira tão perfeita, muitas são também as vezes em que tenho a certeza de que estou por minha conta. de que de nada adianta cruzar os braços à espera de algum empurrãozinho e se por acaso até correu tudo bem é porque o consegui com o meu mérito, porque mereço.
uma coisa é certa, pelo menos neste fase da minha vida não sou devota de nenhum santo. respeito quem o é, mas não consigo deixar de sentir uma enorme rejeição pelo fenómeno fátima. como não crente faz-me muita confusão aquilo a que as pessoas estão dispostas a fazer em nome da fé pela santa.
portanto foi como não crente que assiti à procissão da n. srª das dores, no areal da praia de monte gordo no algarve. e mesmo não crente lá vinha a lagriminha teimosa a querer sair, perante tamanha multidão que acenava à santa, em terra e no mar. porque como não crente chorona não deixei de me emocionar perante a solenidade do momento, perante o pôr do sol maravilhoso, e perante a multidão elevada.

12 comentários:

Maria del Sol disse...

Ora aqui está um tema tão sensível mas quanto interessante de se abordar :)

Confesso que dei por mim também a pensar nele, mas por uma razão muito diversa: o protagonista do filme "American Splendor". Para quem não viu, explicando muito por alto, o senhor, argumentista de banda desenhada, é um portento de acidez e pessimismo, o que faz sentido na maior parte do desenrolar da acção, mas a certa altura, se torna exagerado.
Não estou a pôr em causa a qualidade do filme (muito original, por sinal), mas o que me custou a assumir foi o facto de vermos uma evolução factual positiva na vida dele e o próprio nunca se mostrar alegre por razão alguma, insistindo no estigma que é ter aquela comédia deprimente como vida.

Quanto a mim, mais do que do fanatismo religioso (suficientemente grave, mesmo assim, para nos preocuparmos com ele), no Ocidente sofremos sobretudo deste último síndrome de ingratidão cósmica, achando a nossa vida a mais miserável, a mais deprimente, a mais desafortunada de todas, quando a alguns quilómetros de latitude a sul ou a leste encontramos países inteiros a quem se pode aplicar justamente estes adjectivos.
Quer isto dizer que devemos cruzar os braços e só dar graças pelo que temos a uma instância superior? Não podia estar menos de acordo. Por termos condições superiores às da maioria temos também oportunidade de fazer algo não apenas por nós. Soa a devaneio panfletário? Talvez. Mas, crentes ou não, os espanhóis condensam numa única frase a posição mais sustentável: "A Dios rogando y con el mazo dando" (= " A Deus rogando e com o martelo trabalhando").
E, seja a fé ou a consciência global a mover-nos, espero não ver um mundo em que o individualismo hedonista venceu.

Baci!

P.S. - Esta relfexão saiu-me um bocadinho grande, mas o tema também não podia fazer-se em duas pinceladas ;)

naturalissima disse...

Estou de acordo com o teu sentir e pensar.
Sou mais em ter fé na minha pessoa. Acreditar naquilo que sou como ser humano e nas minhas capacidades de realizar sonhos, desejos, felicidade...
O fanatismo, o exagero de agarrar-se em algo que nos faça feliz, é doentio... As fés que ultrapassam os limites humanos deveriam ser proíbidos... As caminhadas sangrentas e dolorosas, à nossa Senhora de Fátima, é de um exagero doentio.
Com respeito aos que tomam esses caimhos, não pude deixar de dizer o que penso e sinto em relação a este tema. E muito há por escrever e discutir...
No entanto sei ver e sentir momentos especiais, cerimónias que simbolizam a vida, a saúde e o amor ao próximo. Não mais do que isto...

Fico por aqui, a fim de não feriri sensibilidades.

beijinhos
Daniela

naturalissima disse...

Desculpa-me o lapso: "...feriri..." -ferir

Zorze disse...

Maria do Sol: Amercican Splendor é um filme excepcional. Bom comentário, mas podias ter reduzido o teu raciocínio a isto: andamos sempre a queixarmo-nos da vida e para ultrapassar esta questão temos várias hipóteses de escapatória:

a) Vícios
b) Ginástica mental
c) Religião
d) Política
e) Solidariedade
f) Outros

little_blue_sheep disse...

...sem comentários!
;*

Maria del Sol disse...

Zorze: tens razão, podia ter sido muito mais simplista na minha explicação, mas o ponto fulcral da questão talvez não tenha ficado claro: porque será que temos de andar sempre a queixar-nos da vida? não haverá maneira de programar a nossa mente para saltar essa parte e passar directamente à acção? Claro que eu estou aqui a dizer isto e o meu ultimo post foi todo ele uma queixa...enfim!
Cumprimentos :)

Cataclismo Cerebral disse...

Creio que a fé não pode ser encaixada nos estreitos parâmetros a que estamos habituados. Não acredito nas severas rotinas que as diversas religiões impõem, pois penso que prejudicam a relação que cada um tem com o transcendente. Mas sinceramente confesso que me comovo com algumas manifestações de fé. Considero bonito e louvável as pessoas participarem em actos de crença, onde se expõem de forma honesta e sentida. Fico a pensar na minha vida e avalio as coordenadas daquilo em que acredito. Alguns rituais associados à fé são extremamente chocantes, mas quem sou eu para apontar o dedo: a fé é acima de tudo algo individual, cada um expressa as suas intenções e crenças da forma que considera ser mais apropriada. Estabelecer um código ou uma doutrina rigída pelas quais as pessoas se devem reger, quais ovelhas num rebanho, isso sim é que consegue ser muitas vezes degradante e deplorável. Parabéns pelo post, é um tema pertinente e que poucos ousam debater...

passarola disse...

eu tenho fé... em mim! ;)

Betty Coltrane disse...

Eu também!!! hehe!!!! ;P

planeta Claudiano disse...

Pois, o que me emociona realmente são as pessoas, é nelas que tenho fé,no que podem fazer umas pelas outras... Acho que também me ia emocionar com essa tarde.

Betty Coltrane disse...

Tens mais uma coisa á tua espera no meu blog, um prémio desta vez! :D

JHB disse...

Uma das coisas pelas quais sou mais conhecido entre o meu grupo de amigos é pela minha aversão à Igreja Católica, e é ela o alvo da maior parte das minha piadas mais corrosivas. Mesmo assim derreto-me todo pela procissão no dia das festas lá da terrinha, é a única das terras das redondezas que ainda alia a festa religiosa às festas profanas, e sabes que mais? Fico todo orgulhos disso acontece.